sexta-feira, 6 de maio de 2011

sola só


do interior sinto a casca!
do fresco sinto o calor
da porta sinto pessoas
dos passos, passos leves
leve o sussurrar
as mãos abraçadas
no comungar solitário
da solidão presente em cada
[pedra sobre pedra

passo a passo numa sola só
do encerado dos pés da calçada que jaz lá fora
[do fresco sinto o calor


da lenda fez-se a malha

do mesmo lado a mesma força
força da mensagem
força no pêndulo do tempo

forma austera em base sólida
sólida na matéria
matéria escrita
lida e acrescentada ponto por ponto
ponto de partida de um lema
lema riscado das notícias
notícias que corriam mundo
do mundo pelos caminhos
dos caminhos até santiago de compostela
da lenda fez-se a malha
essa a que todos pertencemos
na multidão sozinhos de costas voltadas
para nos soltarmos da corda

e observo

cheguei ao pelourinho e parei
aliás pedi para estar parado
e observo

há quem lhe(s) chame cruzeiro
ou marco das vontades da história

a marca deste pelourinho
destaca-se pela descrição rasgada
no granito descorado pelo tempo

lenda de um galo que salva a pele
de um homem da forca e da força
dos amordaçados pela rotina social

tempo de nada

abriu-se o portão ferrugento
da rua um salto, lá do alto, mandou entrar
caminhei em frente   [o portão ficou
aberto para a rua

vi a casa senti o tempo   [tempo de nada
que passou na rua e não disse nada
risquei com riscos de perder
mas não perdi  [ganhei e fiquei a ver

vi árvores, muros e telhados
todos falavam  [o tempo já passou
abriu-se o portão ferrugento
a rua esteve ali para eu passar

na rua

a casa estava na rua
na rua do tempo que fiquei parado a observar
a rua tinha a casa ao tempo para a guardar
o tempo passou na rua e na casa
não disse nada mormorou à janela

de janela em janela se ouviram
se falaram  [o tempo já passou
a rua estava ali para eu passar

dia calmo

as montanhas fugiam quando me aproximava
soltas pareciam tontas

no dia calmo as montanhas não paravam
as silhuetas tremidas de medo naquele tabuleiro
os vultos pararam as montanhas não
[as árvores acompanhavam]




nos campos, verdes em movimento, tudo parava
[como o dia, as montanhas não]


à tardinha as montanhas pararam    [as árvores não]

o vento passava quando me aproximava
solto parecia tonto

tudo parece

envolvo-me  numa margem do riacho
tudo parece parado a olhar-me
a outra margem espera
no encosto de uma ponte
travessia num arco espelhado
tudo parece parado a olhar-me
travessia num arco que não passo
fico, parado, calado
o esboço vai adiantado
o dia também,                  [parou
voltei mais uma vez para ficar
a outra margem espera
tudo parece parado a olhar-me

estava lá fora

da rua que passo e paro    [reparo
reparo o partir dos vidros, e o estalar do dia
reparo o canteiro esquecido e o carro parado
separo os lixos engomados
encrostados no chão
reparo e retiro o essencial
domesticado pelo tempo


ali estático espero       [e noto que
despi o rosto de ruídos e de coisas mais
no tempero da madeira e do carvão

emoldurado o reparo, da rua que passo e paro
um risco de conversa, aproveitei para ouvir e aprender
num ritmo que jaz aperaltado

faz-se
fez-se
o reparo de uma silhueta petrificada
e amaciada de recordações e afectos


o reflexo do dia    [no espelho
de água
la fora está frio   [o inverno está
por agora
os papeis e a mesa organizada repousam
lápis arrumados e canetas afiadas  [prontas
como se tudo esperasse pelo toque de entrada
janela da escola       [mais parecia
pelo som das crianças
o trabalho que aguente
espere que eu também esperei
abri a janela num reflexo     [no espelho
de água
voltei atrás e fechei a porta
fechei-a por dentro
para a abrir para fora     [da janela aberta
da varanda vi o reflexo do dia
estava lá fora

um tempo

riscos de um tempo
do tempo que passa e “do” que está parado!


textos com riscos
riscos acrescidos de temperatura, vivência
e de extractos do momento, do local